Os bastidores da revolução em IA da Engeform, gigante da construção
A Engeform, uma das gigantes da construção no Brasil, não está “testando IA” — está redesenhando como a empresa trabalha. Nesta entrevista, você entra nos bastidores de um programa que já tem política formal de IA, comitê executivo, embaixadores internos, ROI medido em cada POC e uso real em obra (de quatro horas para 40 segundos em revisão de projeto). Sem demitir gente, sem narrativa de hype. Isso é IA tratada como infraestrutura de negócio.
Raphael RosaOctober 27, 2025
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Todo mundo está falando de IA. Quase ninguém está falando de responsabilidade.
Na maioria das empresas, a conversa ainda está no nível “vamos testar alguma coisa com IA e ver no que dá”. Na Engeform, não. Lá existe política formal, comitê, orçamento, métrica de ROI, pipeline de ideias, priorização e — talvez o mais importante — um compromisso explícito de que a tecnologia não é desculpa para demitir gente.
Conversamos com a gerente de Gestão do Conhecimento e Inovação da Engeform, responsável por estruturar o programa interno de IA. O que ela descreve é menos “hack de produtividade” e mais “sistema vivo”. E esse sistema já está rodando em obra.
“A gente não está nesse ponto de demitir pessoas. A gente está no ponto de trazer qualidade de vida pra quem está trabalhando.”
A seguir, os bastidores.
1. Onde tudo começou
A área de Gestão do Conhecimento e Inovação da Engeform nasceu em 2019. A missão inicial era dupla: garantir que o conhecimento crítico da empresa não ficasse preso em poucas pessoas e criar um canal real entre o negócio e o ecossistema de inovação.
“A área surgiu pra conectar inovação aberta com a nossa operação e pra garantir que o conhecimento não fique só com quem sabe, mas circule. Processos, treinamento, registro, troca entre áreas — tudo isso mora aqui.”
Dessa iniciativa nasceram outras estruturas que hoje já se tornaram áreas próprias, como PMO e Engenharia & Projetos. Ou seja: inovação não era uma “caixinha de ideias”, era motor organizacional.
No fim de 2024 e início de 2025, essa mesma área assumiu um novo papel: preparar a Engeform para a adoção séria de inteligência artificial.
“No começo deste ano, IA virou um projeto estratégico da empresa. Eu assumo junto com o gerente de TI.”
Esse detalhe é importante: IA na Engeform não é só tecnologia. É processo, gente, governança e negócio — e por isso a liderança é compartilhada entre Inovação e TI.
2. IA entrou para a estratégia — e deixou de ser experimentinho
Quando IA entrou oficialmente no planejamento estratégico da companhia, duas frentes foram abertas:
Capacitação e adoção interna
Formação de liderança
Treinamento interno
Política de uso e segurança da informação
Ferramentas homologadas
IA aplicada a projetos estratégicos do negócio
Casos de uso em operação
Melhoria de processos
Eficiência e escala em obra
Isso não foi feito “aos poucos” e muito menos só via PPT.
Primeiro movimento: educar quem toma decisão.
“Pegamos todos os gerentes e diretores e fizemos uma imersão de dois dias só sobre IA — do conceito básico até aplicação real em engenharia.”
Depois da imersão executiva, veio a escala. A própria equipe gravou treinamento interno, disponibilizou pela academia corporativa e incentivou os líderes a repassar para seus times. A mensagem é clara: IA não é assunto técnico isolado. IA é idioma corporativo.
3. Política de IA: liberdade com travas
Uma das partes mais maduras da Engeform é algo que quase ninguém quer encarar: governança.
Ao mesmo tempo em que a companhia quer que as pessoas usem IA, ela colocou limites claros sobre como usar e o que pode ou não pode ser exposto.
“A gente incentivou, mas com estrutura. Criamos uma política de IA, fizemos um webinar explicando, todo mundo assinou ciência. Todo mundo sabe o que pode ou não pode mandar pra ferramenta.”
Isso responde a um problema que hoje é óbvio (mas ignorado em muitas empresas): colaboradores usando IA generativa externa para processar dados internos sensíveis, sem autorização, sem registro, sem rastreabilidade.
Na Engeform, esse risco não é empurrado pra baixo do tapete. Ele é controlado.
4. Embaixadores de IA: como escalar sem virar caos
Aqui está uma peça de engenharia organizacional que muita empresa grande ainda não conseguiu montar.
A Engeform criou uma rede de embaixadores de IA. São pessoas de várias áreas — obra, matriz, operação, administrativo — que fazem duas coisas ao mesmo tempo:
Levam boas práticas e ferramentas para seus times.
Capturam dores e oportunidades do campo para virar caso de uso.
“A gente tem representantes de todas as áreas da empresa. Eles trazem ideias, mostram o que estão fazendo, levantam necessidade, e viram ponto focal de IA dentro da área.”
Na prática: cada embaixador é um hub local. Isso reduz o gargalo clássico “tudo depende de TI” e cria massa crítica distribuída.
E não é só influência informal. Esses embaixadores são porta de entrada do pipeline de IA.
5. Pipeline, priorização e comitê de IA
Toda ideia de IA dentro da empresa — seja usar uma ferramenta pronta, seja desenvolver algo novo — passa pelo mesmo funil:
O embaixador formaliza a proposta.
TI avalia segurança, risco de dados, impacto de licenciamento e viabilidade técnica.
Caso precise de desenvolvimento, entra análise de esforço de TI (horas, pessoas, orçamento) ou contratação externa.
A ideia vai para o Comitê de IA.
Esse comitê inclui a alta liderança — diretoria e gestores das diferentes empresas do grupo Engeform.
“A gente conecta os embaixadores à alta liderança. Uma dor de um departamento pode resolver o problema de outra empresa do grupo.”
Resultado: IA deixa de ser ação isolada de herói e vira decisão executiva com dono, prazo, verba e alvo de impacto.
6. ROI não é discurso — é etapa obrigatória
Quando uma ideia entra em piloto (POC), ela não entra “para ver no que dá”. Ela entra com meta.
“A gente usa a mesma carta-benefício que a gente já usa em inovação. A POC nasce com indicadores definidos — qualitativos e quantitativos — e um retorno esperado.”
Esses indicadores incluem:
Redução de esforço manual
Qualidade do dado gerado
Tempo poupado
Impacto operacional em campo
E sim, impacto financeiro, quando fizer sentido
Isso significa que cada piloto já nasce com prazo (tipicamente dois meses), com expectativa e com condições de “escala ou mata”.
Ou seja: não é laboratório, é filtro.
7. O que já está rodando em obra (e não é slide)
Hoje a Engeform está com:
33 projetos priorizados
7 em desenvolvimento ativo
3 já validados e rodando nas áreas
Isso é muita coisa para uma empresa de engenharia pesada. E não é só automação de escritório.
Um caso concreto citado: análise técnica de revisão de projetos.
“Antes, levantar o que mudou entre uma revisão e outra levava quatro horas. Hoje, a gente roda a IA e tem a resposta em 40 segundos.”
Esse uso é crítico em construção. Cada alteração em projeto mexe em custo, cronograma, compra de material, e pode virar erro de execução. Agora, a IA compara PDFs de versões diferentes de projeto, aponta alteração de quantitativos (piso, forro, etc.) e marca possíveis choques de interface: isso é margem. Isso é risco mitigado. Isso é obra entregue com menos surpresa.
E escala:
“Se funciona em uma obra, funciona em 32.”
Esse é o tipo de caso de uso que paga o programa inteiro.
8. Orçamento, backlog e priorização real
Nada disso se sustenta sem dinheiro e sem limite. A Engeform trata IA como portfólio de investimento.
As áreas de Inovação e TI já entram no ano com verba prevista para pilotos.
O comitê de IA prioriza o que entra agora e o que entra no ano seguinte.
Projetos que exigem verba maior podem ser redirecionados imediatamente pela alta liderança, se o retorno esperado justificar.
“Alguns projetos a gente consegue encaixar dentro da verba deste ano. Outros já estão mapeados pro começo do ano que vem. Se o retorno é muito grande, a diretoria realoca orçamento de outra área.”
Tradução: isso já está no ciclo orçamentário e no ciclo de gestão, não na caixinha “inovação experimental”.
9. Pessoas, não cortes
Momento importante.
Enquanto boa parte do mercado trata IA como justificativa para cortes (“fizemos mais com menos”), a Engeform assumiu outra posição.
“A gente não está usando IA pra demitir. A gente está usando pra tirar hora extra, reduzir desgaste e dar mais qualidade de vida para o time.
No setor de construção civil, obra é intensidade pura. As equipes lidam com prazos curtos, retrabalhos e uma rotina que exige atenção constante a cada detalhe técnico. A IA entra aí — para aliviar essa pressão e tornar o trabalho mais fluido.
Isso é mais estratégico do que parece. Retenção em obra custa caro. E gente exausta erra. Gente exausta sai.
Em vez de falar “eficiência = menos gente”, a empresa está trabalhando “eficiência = as mesmas pessoas, menos esmagadas”.
É contra a tendência agressiva que a gente já ouviu de outras empresas: congelar vaga, acumular função ou simplesmente cortar.
10. O próximo passo
Olhando pra 2026, a Engeform não está falando em “big bang de automação total”, nem em “exército de agentes autônomos substituindo analistas”. O horizonte é mais pragmático e muito mais perigoso para quem subestima:
Consolidar o fluxo de ideação → validação → POC → escala.
Expandir os ganhos que já apareceram em casos isolados para toda a operação.
E manter a governança — porque IA sem governança em construção não é inovação. É passivo jurídico.
E tem uma frase que sintetiza a cabeça estratégica hoje:
“Tudo que estamos fazendo agora está dentro do planejamento estratégico 2025. IA já não é paralelo. Já é parte do negócio.”
Fechando
O que a Engeform está construindo não é “um projeto de IA”. É uma infraestrutura organizacional para tomar decisão baseada em impacto, priorizar portfólio, proteger dados e escalar o que funciona.
É raro ver isso tão cedo, e mais raro ainda ver isso em um setor historicamente pressionado por prazo, custo e margem.
Talvez o ponto mais provocador da conversa seja este: para eles, IA não é sobre tirar gente da mesa. É sobre manter gente boa na mesa por mais tempo, com mais saúde, entregando mais valor.
Isso, honestamente, é muito mais revolucionário do que qualquer pitch de “agente autônomo que faz tudo sozinho”.
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